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Stellenbosch - Aventura para chegar e vinho até não aguentar mais!

Stellenbosch
Resolvi aproveitar o feriado aqui na cidade para conhecer uma cidade vizinha à Cape Town. Stellenbosch é a principal localização para produção e investigação da indústria vinícola sul-africana. A Rota dos Vinhos de Stellenbosch, estabelecida em 1971, tem fama mundial e constitui um destino turístico apreciado. E eu, como um bom (e amador) apreciador de vinhos, já quis conhecer a cidade o quanto antes. Mas este post não é para falar sobre toda essas dicas habituais que encontramos na internet, mas sim da aventura que foi para chegar até a cidade.
Bom, antes de começarmos a narrativa, é muito importante eu esclarecer uma coisa para quem não me conhece bem: eu amo viajar, mas não sou a melhor pessoa do mundo no quesito organização. Meu perfil de viagem é: o objetivo é esse, vamos indo e vemos onde vai parar e o que vai aparecer pelo caminho. Esclarecido esse ponto, vamos seguir...

Estou morando em Green Point em Cape Town, e essa região é muito bem assistida pelo transporte público (MyCity), que tem seu horário de funcionamento bem correto e pontual, mas aqui na África do Sul foi feriado sexta-feira e segunda-feira, logo estávamos no meio de um feriado prolongado e por isso as coisas devem funcionar de uma maneira mais... lenta. Resolvi que iria economizar (palavra de ordem para minhas viagens) e assim iria para a cidade vizinha de trem. Para chegar até a estação não consegui pegar o MyCity porque, pela primeira vez desde que estou aqui, ele não passou no horário. Fiquei com receio de perder muito tempo esperando e peguei uma van mesmo (transporte irregular).  E essa foi a primeira vez que peguei esse meio de transporte aqui em Cape Town. As pessoas vão bem amontoadas dentro da van, mas até aí ok para mim, porque as vans do Rio de Janeiro são bem parecidas, mas o mais curioso é que além dos bancos fixos da van, eles colocam também umas maneiras e caixotes improvisados dentro da van, dessa forma, mais pessoas conseguem ir sentadas. Não posso dizer exatamente que é seguro, mas eu gostei da ideia porque dessa forma eu consegui ir sentado. rs

Primeira Classe do trem
Chegando na estação, fui comprar o ticket para Stellenbosch, imediatamente o bilheteiro informou que eu deveria ir de primeira classe, paguei pelo bilhete e fui em direção ao trem. Ninguém, em nenhum momento pediu para verificar o meu bilhete ou me parou pelo caminho, e então, pela primeira vez eu senti o choque de realidade relacionado ao racismo aqui no país: eles pararam alguns negros para verificarem o bilhete. Segui meu caminho e tentei descobrir qual trem eu deveria pegar, mas estava muito confuso, nos telões não havia a informação para a cidade que eu queria ir, e então tentei informação com uma segurança da estação, que me colocou em um trem sem das muitas explicações. Fiquei um pouco inseguro de ir para o lugar errado e fui pegar informação no balcão de informações, que não sabia me informar ao certo qual trem eu deveria pegar, e nesse momento, eu já comecei a ficar mais agoniado. Então um senhor me informou que, por ser feriado, os trens estavam fazendo rotas diferentes e que e deveria pegar o trem para uma determinada estação e lá fazer a baldeação, e me levou até uma plataforma. E eu ainda não tinha entendido direito, mas eu tinha duas opções: voltar pra minha casa ou confiar. Escolhi confiar.

Anúncios no trem
Mas uma coisa que me chamou muita atenção era a quantidade propagandas coladas por todas as partes, em todos os trens, principalmente para clínicas de aborto, que prometiam segurança e profissionais para o procedimento. A primeira ideia que veio é que, mesmo a prática sendo legalizada no país, ela não está acessível como política de saúde amplamente instituída. Hoje buscando informações a respeito, isto se confirmou. Diante do cenário machista e racista em que vivemos nesse mundo, obviamente as mais atingidas são mulheres e meninas pobres e negras, visto que a sociedade sul africana continua muito estratificada.

Passado esse primeiro choque dos anúncios, chegou o segundo momento em que senti as sequelas do racismo aqui no país. É muito importante entendermos o quão delicada foi e é ainda nos dias as sequelas do Apartheid, e existem muitas feridas na história que ainda não cicatrizaram. Pois então, na primeira classe do trem, haviam apenas 4 pessoas, brancas. Um policial da estação entrou no trem e não pediu para verificar nossos ingressos, mas nesse mesmo momento, entraram 3 garotos negros no vagão, e o segurança os expulsou sem qualquer cerimônia. O trem começou a viagem, e algumas estações na frente entrou um grupo de homens negros que ficou em pé ao lado do meu banco, provavelmente falando em Africâner ou Zulu (outras línguas muito faladas aqui) diretamente comigo, rindo, talvez debochando. E eu simplesmente não tinha o que fazer, a não ser torcer para que fosse apenas uma brincadeira. Mais uma vez repetindo para reforçar: infelizmente aqui ainda é muito forte a sequela do Apartheid e por isso, existem pessoas que ainda não sabem lidar com esse período tão cruel do país.

Bom, só sei que realmente me bateu uma certa tensão e desespero, e precisei ao máximo tentar manter a calma e fingir naturalidade. Para isso, recorri inclusive à uma carta que uma grande amiga que já morou aqui me escreveu um pouco antes de eu vir...

"5 - Muito importante para se manter vivo: entenda o que os outros falam, não entendeu? Pergunta de novo. Pede pra escrever, desenhar, whatever. Dependendo de onde você estiver, terão locais que você não poderá ultrapassar. Não faz o louquinho não. Ah! Pode parecer preconceituoso no início, mas não insista! Vá de primeira classe sempre no trem. Tem coisas que você não precisa passar. Real. Toda vez que eu fui dar de branca revolucionária, princesa Isabel, eu me fodi muito. Aceita a segregação. Se você não aceitar, eles vão ficar indignados."

"9 - Não desespera, viado! Independente do que aconteça, pára, olha pra cima, respira. Você tem vivência e inteligência suficientes pra resolver qualquer situação sem entrar no modo pânico. Se isso acontecer, vira uma bola de neve infinita. Não treme, não gagueja e não chora. Se for fazer isso, faz escondido pra pessoas não perceberem que você surtou."

Bom, eles desceram algumas estações depois e provavelmente estavam só tirando uma comigo mesmo. E eu só queria chegar o quanto antes. 

Desci na estação que deveria fazer a baldeação, o mesmo senhor que ajudou a pegar o trem, ajudou a pegar o trem seguinte para meu destino final. Que demorou cerca de uma hora para chegar.
Enfim, depois de quase três horas, consegui chegar ao me destino! Obviamente que não deixaria que toda a aventura passada para chegar desanimasse os planos para o feriado, afinal, EM BREVE TERIA MUITO VINHO!
Fui a pé para o hostel, que ficava relativamente perto da estação, e já fui andar pela cidade, que realmente me fazia sentir como se estivesse na Europa. Tudo muito bonito, calmo e silencioso. Talvez por conta do feriado prolongado, realmente haviam poucas pessoas na rua, o que permitiu que andasse tranquilamente, apreciando a cidade, as construções  e todo chame que ela possui.

Infelizmente esqueci de anotar
o nome do restaurante :(

Como o tempo de chegada na cidade foi maior do que o esperado, não consegui ir a nenhuma vinícola no dia da chegada, então resolvi apenas comer algo (e inclusive, que pasta maravilhosa que comi!). E então, depois de comer esse prato dos deuses, voltei para o hostel apenas para esticar um pouco as pernas pra poder sair pela cidade mais tarde em buscar de diversão, música e álcool.
Mas a cidade realmente estava bem vazia, e estava ventando muito na rua, mas mesmo assim, encontrei dois pubs, onde as pessoas estavam bem, mas bem loucas mesmo. Fiquei até cerca duas da manhã, porém a larica bateu forte e precisei arrumar algo para comer. Mas a cidade inteira já estava fechada aquela hora, e por sorte, consegui encontrar um Mc Donald's. E aquele hambúrguer caiu como uma luva.

Na manhã seguinte, finalmente começaria meu happy day! Mas... Não havia ainda decidido em quais vinícolas iria, e nem quais estariam abertas pois era feriado nacional. Resolvi ir no centro de informações turísticas, mas tudo o que queria fazer era vender um passeio que custaria 350 rands para visitar 6 vinícolas e ainda teria que pagar os ingressos. Preferi tentar fazer por conta própria, e foi a melhor decisão que poderia tomar. E tenho que confessar, o panfleto que peguei foram imprescindíveis pois com ele eu sabia quais estavam abertas no feriado, e estava na ordem da mais perto para a mais longe do centro da cidade. Peguei um uber e fui em direção à primeira Vinícola.

Vinícola Beyerkloof

Cerca de 10 minutos depois eu já estava na primeira, que se chama Beyerkloof, e ela funciona da seguinte maneira: você escolhe uma das três opções de degustação, onde a primeira te dá direito à 5 vinhos, a segunda a 4 e a terceira a NOVE vinhos por 60 RANDS! Que dá cerca de DEZESSEIS REAIS!!! E além dos vinhos serem ótimos, o lugar também é muito charmoso. Fiquei por cerca de uma hora e meia lá e no final dessa degustação eu estaca bem alegre já, como segue nas fotos abaixo:





Mas como eu queria mais, peguei um uber para outra vinícola, que se chama Simonsig. Essa tem um serviço diferenciado, onde eles te dão uma carta de vinhos, e você monta sua própria degustação, e pode escolher em cada uma das opções se quer degustar (25ml), uma taça (60ml) ou a garrafa. Montei a minha para que desse 100 rands e escolhi 8 vinhos, mas ao final minha conta deu 70 rands (cerca de dezenove reais!!!), não entendi muito bem mas parece que era preço especial de degustação (e ainda ganhei mais uma de cortesia!!)

Vinícola Simonsig

Ao final de tanta degustação, eu já estava um pouco mais que alegre, e era hora de parar, rs.

Degustação cortesia

Sua melhor amiga para um dia de degustação de vinhos

E então era hora de voltar para Cape Town. Tinha uma estação de trem bem perto da vinícola, então resolvi encarar de novo e voltar de trem. Parecia uma estação fantasma, e realmente não tinha a opção de comprar o bilhete. Perguntei para um morador onde poderia comprar o bilhete, e ele me informou que não precisava comprar, era só entrar.

Placa da estação com os horários escritos à caneta.

Banheiro da estação

Dessa vez, todos os locais foram bem simpáticos e solícitos, como a maioria das pessoas por aqui. Inclusive pediram para que eu não ficasse no meio da plataforma sozinho (como eu estava), e que era mais seguro ficar numa das extremidades, junto com os outros moradores que estava esperando. Assim o fiz, e o trem demorou mais de uma hora para passar. Quando passou, eu não tive tempo de procurar a primeira classe, fiquei receoso mas entrei mesmo assim, e para minha surpresa, foi tudo muito tranquilo. Inclusive me ajudaram informando que não precisaria mudar de trem pois esse iria direto para Cape Town. A viagem demorou cerca de uma hora e meia e eu estava tão relaxado (e cansado) que inclusive dormi no trem.

Resumo da aventura: se eu faria de novo? Sim, tudo!
E inclusive, já quero voltar na cidade em breve, afinal, lá tem mais de 100 vinícolas que são internacionalmente premiadas! rs

Até breve (?)

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